Uma projeção de caixa de 13 semanas é uma planilha com uma coluna por semana, cerca de três meses, em que você lança o saldo inicial, tudo o que vai entrar e tudo o que vai sair, e vê o saldo final de cada semana. O formato semanal mostra o aperto antes que ele chegue: se a semana 7 fica negativa, você tem seis semanas para renegociar, adiar uma compra ou reforçar a cobrança. Treze semanas são longas o bastante para enxergar um trimestre e curtas o bastante para que as previsões ainda sejam razoáveis. Os oito passos abaixo montam a primeira versão em uma tarde.

Passo 1: monte a estrutura da planilha

Crie uma planilha com 13 colunas, uma para cada semana, identificadas pela data da segunda-feira. Nas linhas, use quatro blocos:

  • Saldo inicial da semana.
  • Entradas: recebimentos de cartão, boletos e crediário a receber, vendas à vista estimadas, outras entradas.
  • Saídas: fornecedores, folha e encargos, aluguel e contas fixas, tributos, parcelas de empréstimo, retirada dos sócios, outras saídas.
  • Saldo final da semana: saldo inicial + entradas − saídas. O saldo final de uma semana vira o saldo inicial da seguinte.

Mantenha poucas linhas. Uma projeção com 40 categorias dá trabalho para atualizar e acaba abandonada. Se você já usa um sistema de gestão com contas a pagar e a receber, ele fornece boa parte dos números; a planilha serve para juntar tudo por semana e acrescentar as estimativas.

Passo 2: defina o saldo inicial real

O saldo inicial é a soma do dinheiro disponível hoje em todas as contas bancárias e no caixa físico da loja. Use o extrato, e não o saldo que aparece no controle interno, porque os dois costumam divergir por lançamentos esquecidos.

Não some aplicações que não podem ser resgatadas a qualquer momento nem o limite do cheque especial. Limite de crédito não é caixa; se ele aparecer como saldo, a projeção vai esconder justamente o aperto que deveria mostrar.

Se as contas da empresa e as contas pessoais do dono se misturam, separe antes de começar. Lance como saída da empresa apenas uma retirada fixa combinada para os sócios, na data em que ela costuma acontecer. Pagamentos pessoais feitos pela conta da empresa, sem registro, são uma das razões mais comuns para a projeção não bater com o extrato no fim da semana.

Passo 3: lance os recebimentos já contratados

Comece pelas entradas que já têm data e valor: vendas no cartão a receber, boletos emitidos, parcelas de crediário, pagamentos combinados com clientes.

Para o cartão, use a data em que o dinheiro realmente cai na conta, e não a data da venda. O prazo de liquidação e as taxas dependem do contrato com a operadora e da modalidade (débito, crédito à vista, parcelado), então confira no extrato da maquininha ou no portal da operadora. Lance o valor líquido, já sem a taxa.

Para boletos e crediário, considere que parte dos clientes paga com atraso. Uma prática prudente é lançar na data de vencimento apenas a fatia que historicamente é paga em dia e empurrar o restante para algumas semanas depois.

Passo 4: estime as vendas futuras com cautela

As vendas que ainda não aconteceram entram como estimativa. Use a média semanal das últimas oito a doze semanas como ponto de partida e ajuste por sazonalidade conhecida, como datas comemorativas ou o período de férias.

Depois, aplique um desconto de prudência. Um exemplo hipotético: a loja vende em média R$ 20.000 por semana, metade à vista ou no débito e metade no crédito. Na projeção, entram R$ 9.000 de vendas à vista estimadas por semana, um pouco abaixo da média, e a parte do crédito entra nas semanas em que vai ser liquidada. A projeção prudente erra para o lado seguro: é melhor descobrir no fim do mês que sobrou dinheiro do que o contrário.

Passo 5: lance as saídas fixas e as obrigações com data

Agora as saídas que se repetem: aluguel, salários, pró-labore, encargos, contas de consumo, mensalidades de serviços, parcelas de empréstimos e financiamentos. Coloque cada uma na semana do vencimento.

Inclua também os tributos. As datas de vencimento e os valores dependem do regime tributário, da atividade e do estado ou município, por isso o calendário de impostos da empresa deve ser confirmado com o contador. Se o valor de um tributo depende do faturamento do mês, estime-o a partir da projeção de vendas e corrija quando a guia for emitida.

Não esqueça as saídas que acontecem uma ou duas vezes no ano e pegam o caixa de surpresa: décimo terceiro, férias, renovação de seguro, licenças e taxas anuais. Se alguma delas cai dentro das 13 semanas, ela precisa estar na planilha.

Passo 6: lance as compras de mercadoria

As compras são a saída mais flexível e, por isso, a mais perigosa de esquecer. Lance primeiro os boletos de fornecedores que já estão emitidos. Depois, estime as compras de reposição das próximas semanas com base no que você costuma comprar para sustentar o ritmo de vendas.

Considere o prazo de pagamento negociado. Uma compra feita na semana 2 com prazo de 28 dias sai do caixa na semana 6, e não na semana 2. Esse descompasso entre o prazo de compra e o prazo de recebimento das vendas é o que define a necessidade de capital de giro da loja; o conteúdo sobre como otimizar o fluxo de caixa e evitar problemas mostra outros pontos de atenção nessa relação.

Passo 7: calcule o saldo semana a semana e defina o saldo mínimo

Com entradas e saídas lançadas, a planilha calcula o saldo final de cada semana. Agora defina um saldo mínimo: o valor abaixo do qual a empresa não deve ficar, para absorver um atraso de cliente ou uma despesa imprevista. Uma referência comum é o equivalente a algumas semanas de despesas fixas, ajustada à realidade de cada negócio.

O trecho abaixo mostra, com valores hipotéticos e arredondados, como as primeiras quatro semanas podem ficar:

LinhaSemana 1Semana 2Semana 3Semana 4
Saldo inicialR$ 18.000R$ 21.500R$ 16.000R$ 19.500
EntradasR$ 19.000R$ 18.500R$ 19.000R$ 20.000
SaídasR$ 15.500R$ 24.000R$ 15.500R$ 16.000
Saldo finalR$ 21.500R$ 16.000R$ 19.500R$ 23.500

A semana 2 concentra a folha e um boleto de fornecedor e, por isso, consome caixa mesmo com vendas normais. É esse tipo de oscilação que a visão semanal revela e que um controle mensal esconderia. Marque em destaque toda semana em que o saldo final fica abaixo do mínimo. Para cada uma delas, anote uma ação possível, em ordem de preferência:

  1. reforçar a cobrança de valores vencidos;
  2. adiar compras que não afetam as vendas imediatas;
  3. negociar prazo maior com um fornecedor;
  4. reprogramar uma despesa que pode esperar;
  5. só por último, buscar crédito, comparando custo e prazo com calma, e não na véspera do vencimento.

Um exemplo hipotético: a projeção mostra saldo de R$ 4.000 na semana 9, quando o mínimo definido é de R$ 10.000, porque nela coincidem a folha, um boleto grande de fornecedor e uma parcela de empréstimo. Com sete semanas de antecedência, dá para negociar com o fornecedor o pagamento em duas vezes, o que resolve sem custo financeiro.

Passo 8: atualize toda semana e role a janela

A projeção só funciona se for atualizada. Escolha um dia fixo, de preferência segunda-feira, e faça três coisas:

  • substitua as estimativas da semana que passou pelos valores reais e confira se o saldo final bate com o extrato;
  • anote as diferenças relevantes entre o previsto e o realizado, para melhorar as próximas estimativas;
  • apague a semana encerrada e acrescente uma nova no fim, para manter sempre 13 semanas à frente.

Depois de algumas semanas, a comparação entre previsto e realizado mostra onde a projeção costuma errar, seja nas vendas, seja nos atrasos de clientes, seja nas compras, e as estimativas ficam mais confiáveis. A atualização leva poucos minutos quando vira rotina. Para quem quer encaixar essa revisão em uma rotina financeira mais ampla, as dicas para simplificar a gestão financeira de pequenas empresas trazem outras tarefas que cabem no mesmo horário.