CMV, o custo da mercadoria vendida, é quanto custou para a empresa a mercadoria que saiu do estoque vendida em um período. Ele não é o total de compras do mês. A conta mais usada no comércio é: CMV = estoque inicial + compras do período − estoque final, com todos os valores pelo custo. Com o CMV, a loja calcula a margem bruta: vendas líquidas menos CMV.

A conta do CMV pelo estoque

Suponha uma loja hipotética de utilidades domésticas no mês de março:

LinhaValor
Estoque inicial, a custo, em 1º de marçoR$ 80.000
(+) Compras do mêsR$ 45.000
(=) Mercadoria disponível para vendaR$ 125.000
(−) Estoque final, a custo, em 31 de marçoR$ 70.000
(=) CMV de marçoR$ 55.000

A loja comprou R$ 45.000, mas vendeu mercadoria que custou R$ 55.000. Os R$ 10.000 de diferença saíram do estoque que já existia. Se as vendas líquidas de março foram de R$ 100.000, a margem bruta foi de R$ 45.000, ou 45% das vendas.

Os três números do estoque entram pelo custo, nunca pelo preço de venda. O estoque final precisa vir de uma contagem ou de um saldo de sistema confiável: se o saldo estiver errado, o CMV sai errado na mesma proporção.

O que entra no custo da mercadoria

O custo de cada item não se resume ao preço da nota do fornecedor. Em geral, ele inclui:

  • o preço pago ao fornecedor, já abatidos os descontos que constam na própria nota;
  • o frete e o seguro da compra, quando pagos pela empresa;
  • os tributos da compra que a empresa não consegue aproveitar como crédito.

O último item depende do regime tributário e da atividade: o mesmo tributo pode ser custo para uma empresa e crédito para outra. Essa definição deve ser feita uma vez com o contador e aplicada sempre do mesmo jeito.

Bonificações e mercadorias recebidas sem custo também mexem na conta, porque entram no estoque. Combine com o contador como registrá-las, para não inflar nem reduzir o CMV de forma artificial.

Custo médio ponderado: como o custo de cada item muda

Quando o mesmo produto é comprado várias vezes por preços diferentes, é preciso decidir qual custo atribuir a cada unidade vendida. O método mais comum na pequena empresa é o custo médio ponderado: a cada nova compra, recalcula-se o custo médio de todo o estoque daquele item.

Exemplo hipotético: a loja tem 40 unidades de uma panela com custo médio de R$ 50 e compra mais 60 unidades a R$ 56.

Novo custo médio = (40 × R$ 50 + 60 × R$ 56) ÷ 100 = (R$ 2.000 + R$ 3.360) ÷ 100 = R$ 53,60.

A partir daí, cada panela vendida sai do estoque a R$ 53,60, até a próxima compra. O método vizinho é o PEPS, em que as unidades saem pelo custo na ordem em que entraram: primeiro as mais antigas. Em períodos de alta de preços, o PEPS tende a mostrar um CMV menor e uma margem maior do que o custo médio, porque baixa primeiro as unidades compradas mais baratas. O método usado nos registros oficiais deve ser confirmado com o contador; para a gestão, o essencial é usar sempre o mesmo.

CMV e compras: a confusão mais comum

O erro mais frequente é tratar as compras do mês como custo do mês. Uma loja que se prepara para o fim de ano compra muito em outubro e pouco em dezembro. Se usar as compras no lugar do CMV, outubro parece ter margem baixíssima e dezembro, margem altíssima:

MêsVendasComprasCMVMargem calculada pelas comprasMargem pelo CMV
OutubroR$ 100.000R$ 90.000R$ 55.00010%45%
DezembroR$ 180.000R$ 40.000R$ 99.00078%45%

Nos dois meses, a margem bruta real ficou em 45%. A compra é uma decisão de caixa; o CMV é uma medida de resultado. As duas informações importam, mas respondem a perguntas diferentes: a compra diz quanto dinheiro saiu ou vai sair, e o CMV diz quanto custou aquilo que foi vendido.

CMV, despesas variáveis e custos fixos

O CMV inclui só o custo da mercadoria. Taxa de cartão, comissão de vendedor e tributos sobre a venda ficam fora dele: são despesas variáveis. Aluguel, salários e energia também ficam fora: são custos fixos, mesmo sendo necessários para vender.

As camadas se encaixam nesta ordem:

  • vendas líquidas − CMV = margem bruta;
  • margem bruta − despesas variáveis = margem de contribuição;
  • margem de contribuição − custos fixos = resultado operacional.

Misturar essas camadas é o que leva o dono a achar que ganha 45% sobre cada venda quando, depois das despesas, sobra uma fração disso. No exemplo de março, se as despesas variáveis somam 12% das vendas e os custos fixos, R$ 25.000, o resultado operacional é de R$ 8.000: R$ 45.000 − R$ 12.000 − R$ 25.000.

CMV e giro do estoque

O CMV também é a base para medir quanto tempo a mercadoria fica parada. O giro do estoque compara o custo do que foi vendido com o estoque médio do período, os dois pelo custo: giro = CMV ÷ estoque médio. Usar o faturamento no lugar do CMV é outro engano frequente, porque mistura preço de venda com custo e faz o estoque parecer girar mais rápido.

No exemplo de março, o estoque médio foi de R$ 75.000, a média entre os R$ 80.000 do início e os R$ 70.000 do fim. O giro do mês foi de R$ 55.000 ÷ R$ 75.000, cerca de 0,73. Dito de outra forma, o estoque médio cobre cerca de 41 dias de vendas: R$ 75.000 ÷ R$ 55.000 × 30 dias.

Esse número só faz sentido comparado com ele mesmo ao longo dos meses ou entre famílias de produtos. Se a cobertura sobe de 41 para 60 dias sem que as vendas tenham caído, a loja está comprando mais do que vende, e o dinheiro está ficando preso na prateleira.

Erros comuns no cálculo do CMV

  • Ignorar perdas e quebras. Produto que venceu, quebrou ou sumiu sai do estoque sem ser vendido. Pela conta do inventário, ele entra no CMV e reduz a margem sem aparecer em lugar nenhum. Registrar essas baixas com o motivo separa o custo de vender do custo de perder.
  • Avaliar o estoque pelo preço de venda. Com o estoque final inflado, o CMV cai e a margem do mês parece maior do que é.
  • Misturar consumo interno com venda. Mercadoria usada pela própria loja precisa ser baixada como despesa, e não ficar escondida no CMV.
  • Mudar de método no meio do ano. Trocar custo médio por PEPS, ou mudar o que entra no custo, quebra a comparação entre os meses.
  • Calcular sem conferir o estoque. Se o saldo do sistema não bate com a prateleira, o CMV herda o erro. Uma contagem periódica dos itens de maior valor reduz esse risco.

Calculado do mesmo jeito todo mês, o CMV transforma a margem bruta em um número comparável, que pode ser acompanhado em um painel como os descritos em como usar dashboards de gestão para decisões rápidas e precisas. Qualquer queda passa a ter uma explicação a procurar: compra mais cara, desconto excessivo ou perda de estoque. Para atacar a última, as práticas de gestão de estoque eficiente para reduzir perdas ajudam a localizar onde a mercadoria está sumindo.